CONSTIPAÇÃO INTESTINAL

1. É verdade que as mulheres sofrem mais disso do que os homens? Qual a proporção?
Seguramente 7 em cada 10 mulheres têm um grau maior ou menor de prisão de ventre. Trata-se de algo extremamente comum, principalmente entre as mulheres. Não acredito que haja estimativa confiável comparando a proporção entre homens e mulheres, simplesmente por que muitas pessoas, principalmente os homens, não costumam se queixar ao médico, mesmo quando questionado ativamente sobre o assunto. Um valor razoável seria cerca de 4 a 6 vezes mais mulheres do que homens. As mulheres têm mais facilidade de expor o problema.

2. Por que as mulheres têm mais prisão de ventre?
As mulheres têm uma cultura que não as permite qualquer exposição. Não são capazes de interromper uma rotina fora de casa para ir ao banheiro e "correr riscos" de ter que dizer a alguém que foi ao banheiro. Os homens são, no geral, mais capazes de utilizar qualquer banheiro, em qualquer lugar. É muito comum às mulheres passar até 5 dias de uma viagem sem evacuar, e só conseguir quando chega em casa, no seu banheiro. Por outro lado, alguns episódios na vida de uma mulher estão muito relacionados à diminuição/alteração dos movimentos intestinais e freqüência de evacuações, como gravidez e cirurgias pélvicas (histerectomia, por exemplo) que alteram a motilidade do assoalho pélvico e o tempo de trânsito intestinal, podendo precipitar constipação em mulheres que nunca foram constipadas

3. Hábitos inadequados são os maiores culpados? Quais hábitos? Que erros as mulheres cometem à mesa que acabam prejudicando o intestino?
Na prática diária é muito mais comum vermos constipação por erros alimentares do que por defeitos anatômicos ou de outras causas. Os hábitos alimentares tidos como os maiores vilões são a falta de líquido na dieta - deve-se beber pelo menos 2,5 litros de líquido por dia, e no verão essa necessidade aumenta cerca de 50%; a carência de fibras vegetais; excesso de gorduras e carboidratos.

4. Por que o hábito de prender o intestino é nocivo? Quais as possíveis conseqüências se o quadro não for tratado?
Ter vontade ir ao banheiro e "prender o intestino" é uma prática inadequada porque faz com que as fezes fiquem mais tempo em contato com a mucosa do intestino, o que pode causar doenças como câncer e inflamações, Além disso, torna as fezes muito duras e dificulta a evacuação depois, levando a doenças do ânus, como hemorróidas e fissuras.

5. Por que não se deve abusar de laxantes?
O melhor laxante que existe é a combinação líquidos/fibras naturais. Qualquer outro laxante tem efeitos colaterais. Abusar de laxantes, principalmente irritantes de mucosa intestinal pode ser bastante conveniente, principalmente porque costuma resolver em pouco tempo o problema, mas o seu uso crônico causa sérias doenças intestinais, algumas até passíveis de tratamento cirúrgico.

6. A prisão de ventre pode favorecer o aparecimento de câncer de intestino?
Há alguns anos foi comprovado cientificamente que o câncer de intestino está muito ligado à falta de fibras na dieta e conseqüentemente à constipação intestinal. O aumento do tempo de trânsito intestinal aumenta o tempo de contato das fezes com a mucosa intestinal e causa inflamações. O próximo passo é uma mudança do padrão da mucosa intestinal que pode ser pré-cancerígeno.

7. Qual é o primeiro passo para resolver o problema? Que mudanças devem ser feitas à mesa?
Para se resolver o problema há necessidade de avaliação individualizada para que se possa detectar a causa do problema e tratar adequadamente. Mas um bom início é começar as refeições com um bom prato de verduras cruas com pouco tempero contendo óleo e bastante líquidos durante o dia. Se não conseguir comer salada, uma ou duas colheres de farelo de trigo por dia devem ser de boa ajuda. Uma dica é não deixe todo o trabalho de normalizar o intestino para as fibras; elas dependem de água para formar fezes de consistência adequada. Só comer as fibras e não tomar água pode ser pior do que deixar como está.

8. Atividade física ajuda? Que outros hábitos devem ser corrigidos?
A atividade física é um grande estimulante à movimentação intestinal, e conseqüentemente melhora do hábito intestinal, mas uma série de outros hábitos devem ser corrigidos. Por exemplo: deve-se estimular o paciente a ter uma rotina diária de ir ao banheiro: pedimos que todos os dias, numa determinada hora escolhida por ele mesmo, vá ao banheiro e tente evacuar, mesmo que tenha pouco ou nenhum sucesso. Algumas vezes é necessário acompanhamento dietético, e até psicológico e fisioterápico para tratamento da constipação intestinal.

9. Pode acontecer de a pessoa melhorar a dieta e os hábitos e ainda assim o intestino não "responde"? Nesse caso, o que se faz?
Cada caso deve ser avaliado individualmente. Se uma pessoa não melhora mesmo após as correções dietéticas habituais, ou se na história clínica haja justificativa, podem ser solicitados diversos exames, alguns até bem específicos, para diagnóstico definitivo e tentativa de tratamento.

10. Numa situação de emergência, por exemplo, viagem de fim-de-semana, quando o intestino teima em não funcionar, o que fazer?
Além das orientações habituais, não há o que orientar para funcionar de urgência. Se for só um final de semana e chegando em casa funcionar novamente, não haverá maiores problemas. Mas se isso se tornar rotina deve ser investigado com especialista.

11. A prisão de ventre pode ser sintoma de algum quadro mais complexo? Quais? (Síndrome do Intestino Irritável? Obstrução intestinal?) Nesse caso, a que sinais é preciso ficar atento?
A constipação tem entre suas inúmeras causas, algumas bem simples, que melhoram apenas com adequação dietética, até outros bastante complexos, que exigem investigações demoradas, tratamentos clínicos prolongados, ou até cirúrgicos. A síndrome do intestino irritável e doença diverticular intestinal são exemplos de doenças orgânicas que podem ter a constipação como sintoma. Doenças anais e câncer intestinal também. Sinais que exigem atenção e procura imediata de um especialista são anemia de difícil controle, perda de catarro ou sangue via anal ou dor à evacuação.